Como alinhar estratégia e execução: o teste das 3 perguntas

Por Érico Rodrigues6 min de leitura

Estratégia e execução estão alinhadas quando qualquer pessoa da empresa responde três perguntas sem consultar nada: qual é a prioridade da empresa neste trimestre, como o meu trabalho contribui para ela, e como saberemos se deu certo. Se a terceira resposta não tiver número, o alinhamento é de discurso, não de execução.

Como aplicar o teste das 3 perguntas?

Escolha cinco pessoas de níveis diferentes, incluindo pelo menos duas que não participaram do planejamento. Pergunte separadamente, sem aviso, numa semana qualquer que não seja a primeira do trimestre.

  1. Qual é a prioridade da empresa neste trimestre?
  2. Como o seu trabalho contribui para ela?
  3. Como vamos saber, em março, se deu certo?
O que você ouveO que significa
Respostas parecidas nas três perguntasAlinhamento real. Raro, e vale proteger
Acerta a 1, trava na 2A estratégia foi comunicada e não foi traduzida em trabalho
Acerta 1 e 2, trava na 3Falta o número. É o caso mais comum e o mais fácil de resolver
Trava na 1A prioridade não existe ou são muitas. Não é problema de comunicação
Cada pessoa diz uma coisa diferenteHá várias estratégias em curso ao mesmo tempo
Como ler as respostas

A linha mais reveladora é a última. Quando cinco pessoas dão cinco respostas coerentes e diferentes, o problema não é falta de estratégia: é excesso. Cada área construiu uma que faz sentido para ela, e ninguém percebeu porque nunca foram lidas lado a lado.

Onde a estratégia se perde?

1. Tradução: o plano não vira frase que alguém repete

O planejamento estratégico produz um documento de trinta a quarenta páginas. Ele está certo, foi caro e ninguém abre em março. O problema não é o documento, é que nunca houve o passo de destilar aquilo em duas ou três frases que uma pessoa consegue repetir no corredor.

O conserto é um exercício desconfortável de meia hora: escrever a estratégia do trimestre em no máximo três frases, sem jargão, e testar com alguém que não estava na sala. Se a pessoa não conseguir explicar de volta, ainda não está pronto.

2. Priorização: tudo é prioridade

Uma lista de doze iniciativas estratégicas não é uma estratégia, é um inventário. E o efeito prático dela é que cada time escolhe as duas ou três que mais gosta, o que significa que a priorização real aconteceu de forma descentralizada e invisível.

O teste aqui é diferente e mais duro: pergunte à liderança o que a empresa vai DEIXAR de fazer neste trimestre. Se não houver resposta, não houve priorização.

3. Visibilidade: ninguém vê o mesmo número

A estratégia foi traduzida, a prioridade é clara, e mesmo assim cada área acompanha o próprio número na própria planilha. Duas semanas depois, duas pessoas apresentam números diferentes para a mesma coisa e a reunião vira uma discussão sobre a fonte do dado em vez de sobre o que fazer.

É um problema chato porque parece técnico e é organizacional. A pergunta que resolve: para cada número que importa, quem é a fonte única, e todo mundo sabe quem é?

4. Cadência: o alinhamento acontece uma vez por ano

Este é o furo mais comum de todos. A empresa faz um kickoff excelente em janeiro, com apresentação, energia e todo mundo alinhado ao sair da sala. Em fevereiro apareceram três urgências. Em março ninguém lembra do kickoff.

Alinhamento não é um evento, é uma frequência. E a boa notícia é que a frequência é barata: vinte minutos por semana olhando os mesmos números resolvem mais que um offsite de dois dias, porque o offsite alinha uma vez e a cadência realinha treze.

Onde se perdeSintomaO que fazer
TraduçãoA pessoa cita o documento, não a prioridadeDestilar em 3 frases e testar com quem não estava na sala
PriorizaçãoNinguém sabe dizer o que ficou de foraPerguntar o que a empresa vai deixar de fazer
VisibilidadeDois números diferentes para a mesma coisaDefinir fonte única por indicador
CadênciaTodo mundo lembra do kickoff e nada depoisCheck-in semanal de 20 minutos, com hora fixa
Os quatro pontos, com o sintoma e a correção

Qual é o sinal de que funcionou?

Não é o time citar a estratégia em reunião. Isso é fácil e acontece em toda empresa depois de um kickoff bom. O sinal real é mais específico e demora mais a aparecer: as pessoas começam a dizer não para coisas boas, citando a prioridade.

Quando um gerente recusa um pedido razoável de outra área dizendo "isso é bom, mas não move o que combinamos para este trimestre", a estratégia chegou até a execução. Até que isso aconteça, o que existe é concordância, que é outra coisa e não custa nada.

Vale a liderança dizer isso em voz alta e cedo: recusar trabalho citando a prioridade é o comportamento desejado, não insubordinação. Sem essa permissão explícita, ninguém arrisca, e a empresa continua aceitando tudo enquanto acredita que priorizou.

Onde o OKR entra nisso

O OKR não é a estratégia. Ele é o mecanismo que ataca os quatro pontos ao mesmo tempo: obriga a tradução (o objetivo tem de caber numa frase), força a priorização (poucos por ciclo), cria visibilidade (o mesmo número, no mesmo lugar) e instala a cadência (o check-in semanal).

É por isso que empresas adotam OKR e sentem que resolveu, sem conseguir explicar exatamente o quê. O método é um pacote de quatro correções ao mesmo problema, e a que mais rende costuma ser a quarta, que é a menos discutida.

Perguntas frequentes

Dá para alinhar sem usar OKR?
Dá, e várias empresas fazem isso bem com outros mecanismos. O que não dá é alinhar sem resolver os quatro pontos: tradução, priorização, visibilidade e cadência. Se você tem um jeito próprio que cobre os quatro, ele funciona. O OKR é conveniente porque resolve os quatro num pacote só.
Quantas prioridades uma empresa aguenta ao mesmo tempo?
Duas a quatro por trimestre, para a empresa inteira. O limite não é de capacidade de trabalho, é de atenção: acima disso as pessoas param de conseguir usar a lista para decidir no meio da semana, que é o único momento em que a prioridade tem valor prático.
O time discordar da estratégia é problema de alinhamento?
É um problema melhor do que parece. Discordância explícita significa que a estratégia foi compreendida, o que já resolve metade do caminho. O problema grave é o time não conseguir enunciar a estratégia, porque aí não há nem do que discordar, e a execução simplesmente segue a inércia do que já se fazia.
Quanto tempo leva para o alinhamento aparecer?
Dois ciclos, na maioria das empresas. O primeiro trimestre é gasto aprendendo a traduzir e a manter a cadência; é a partir do segundo que as pessoas começam a usar a prioridade para decidir sozinhas. Quem espera efeito no primeiro mês costuma desistir antes de o efeito chegar.

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