Os 5 limites de gerir OKR em planilha, e como saber que você chegou neles

Por Érico Rodrigues6 min de leitura

A planilha de OKR trava em cinco pontos: ela não guarda histórico, não liga a meta ao trabalho, não avisa ninguém, não tem noção de permissão e não sobrevive a várias pessoas editando. Os dois primeiros são os que realmente matam o método. Os outros três são incômodos que se contornam com disciplina, e por isso enganam.

Limite 1: a planilha guarda o ponto, não a curva

Toda semana alguém sobrescreve a célula do valor atual, e o valor da semana anterior deixa de existir. Você fica sabendo que a conversão está em 26% e não fica sabendo se ela vinha de 22 subindo devagar ou se pulou de 19 para 26 na semana passada.

Isso importa porque as duas situações pedem decisões opostas. Subindo devagar e constante, o certo é não mexer. Pulou de uma vez, vale entender o que aconteceu antes de comemorar, porque frequentemente é um efeito único que não se repete.

Dá para contornar com uma aba de check-in semanal, treze colunas, uma por semana. Funciona de verdade e custa dois minutos por semana. É o contorno que eu recomendaria para quem vai ficar na planilha, e é também o que revela o limite seguinte: alguém precisa lembrar de fazer isso.

Limite 2: a meta e o trabalho vivem em mundos separados

Este é o limite que mata o método, e o único desta lista que não tem contorno bom.

O resultado-chave está na planilha. O trabalho que moveria esse resultado-chave está no quadro de tarefas, no Trello, no caderno ou na cabeça de alguém. São dois mundos que nunca se tocam. Em janeiro isso não incomoda porque todo mundo lembra da conversa de planejamento. Em março, o quadro de tarefas está cheio e a planilha está desatualizada, e a conclusão que a empresa tira é que "OKR não funcionou aqui".

O teste de dez segundos: pergunte a alguém do time qual tarefa que ele vai fazer esta semana existe por causa de um resultado-chave. Se a resposta demorar, os dois mundos já se separaram.

Limite 3: a planilha não cobra ninguém

Ela não manda mensagem, não lembra que a semana passou, não sabe que o seu número está parado há três check-ins. Quem faz isso é uma pessoa, e é sempre a mesma pessoa.

O sinal de que você chegou aqui é específico e fácil de reconhecer: existe alguém na empresa cuja segunda-feira é perseguir número. Costuma ser quem implantou o método, e costuma ser a primeira pessoa a se cansar dele. Quando essa pessoa sai de férias, o ciclo para.

Limite 4: não existe permissão dentro de uma planilha

Ou a pessoa vê o arquivo inteiro, ou não vê nada. Isso deixa de ser detalhe no dia em que a empresa quer que cada time acompanhe o seu, mas nem todo mundo veja a meta de faturamento, ou o indicador de turnover, ou a nota de um time que está mal.

A saída que todo mundo usa é dividir em vários arquivos, e ela cria o problema seguinte: agora existem três planilhas, duas estão desatualizadas, e a consolidação virou trabalho manual de alguém no fim do mês.

Limite 5: edição simultânea desgasta a planilha

Numa planilha compartilhada com dez pessoas editando, fórmula é apagada. Não por má fé: alguém cola um valor por cima de uma célula calculada e a coluna passa a mostrar um número que não se recalcula mais. O erro não avisa, e pode levar semanas para alguém reparar.

LimiteComo ele apareceTem contorno?
HistóricoVocê não sabe se o número vinha subindo ou pulouSim, aba de check-in semanal
Meta sem trabalhoNinguém liga tarefa da semana a resultado-chaveNão, na prática
Sem cobrançaUma pessoa passa a segunda cobrando todo mundoParcial, com agenda fixa
Sem permissãoVirou três arquivos, dois desatualizadosNão
Edição simultâneaUma fórmula sumiu e ninguém sabe quandoSim, protegendo colunas
O sinal concreto de cada limite

Quando continuar na planilha é a decisão certa?

Em dois casos, e vale dizer isso claramente vindo de quem vende a alternativa.

O primeiro é o primeiro ciclo. Trocar de ferramenta e aprender o método ao mesmo tempo faz a empresa confundir os dois, e quando algo dá errado ninguém sabe se o problema era o OKR ou o software. Rode um trimestre na planilha, erre o que tiver de errar no texto dos resultados-chave, e só então mude.

O segundo é a empresa de até dez pessoas com um dono claro da planilha e a cadência funcionando. Se o check-in acontece toda semana, o número está atualizado e ninguém reclama, o problema que a ferramenta resolveria não existe ainda. Trocar por trocar só acrescenta uma migração.

O gatilho honesto para mudar não é o tamanho da empresa. É o limite 2: quando o time não consegue mais ligar o trabalho da semana ao resultado-chave, nenhuma coluna resolve, e daí em diante o método vai degradando mesmo com todo mundo de boa vontade.

Perguntas frequentes

Dá para migrar da planilha sem perder o histórico?
Dá, e vale fazer antes de trocar. O que costuma se perder não são os resultados-chave, que são poucos e se redigitam em uma hora, mas a série do check-in semanal, que só existe se você montou aquela aba. Exporte-a como CSV antes de qualquer coisa: é o dado que não se reconstrói depois.
Qual o momento certo de sair da planilha?
Depois do primeiro ciclo completo, se o limite 2 já apareceu. Trocar no meio do trimestre é o pior momento possível, porque a empresa perde a referência do que combinou justamente na hora de acompanhar. Fim de ciclo é a janela natural.
Trocar de ferramenta resolve a falta de disciplina?
Não sozinho, e quem promete isso está vendendo mal. O que a ferramenta faz é baixar o custo de cada gesto: se atualizar um número leva dez segundos em vez de três minutos, mais gente faz. Se a tarefa da semana já aparece ligada ao resultado-chave, o acompanhamento vira efeito colateral do trabalho. Mas alguém ainda precisa marcar o check-in e comparecer.
E se a empresa já usa uma planilha muito boa?
Então o problema dela provavelmente não é a planilha, e trocar não vai render o que você espera. Vale olhar antes se a cadência semanal está acontecendo e se os resultados-chave estão bem escritos, com valor de partida. Ferramenta boa em cima de OKR mal escrito só deixa o problema mais visível, o que às vezes é útil e nunca é o que se comprou.

Continue por aqui