OKR e KPI: a diferença em uma frase, e por que confundir os dois quebra o seu trimestre

Por Érico Rodrigues6 min de leitura

KPI é o número que você acompanha o tempo todo para saber como a operação vai. Resultado-chave é a decisão de que, neste trimestre, um número específico precisa mudar, e de quanto. O KPI fica no painel o ano inteiro; o resultado-chave entra em janeiro e sai em março. Todo resultado-chave usa um indicador, mas nem todo indicador precisa virar meta.

Qual é a diferença, em um quadro?

KPIResultado-chave (o KR do OKR)
Para que serveSaber como a operação estáMudar alguma coisa neste ciclo
Quanto duraEnquanto o negócio existirUm trimestre
Tem valor de partida?Não. Tem série históricaSempre. Sem ele não há progresso
Tem meta?Às vezes uma faixa saudávelSempre, com data
Quantos ter8 a 15 na empresa3 a 5 por objetivo
Quando é bomEstável dentro da faixaQuando mexe de verdade
ExemploChurn mensalReduzir o churn de 3,4% para 2,0% até 31/03
A tabela que resolve 90% da confusão

Repare na linha "quando é bom". Ela é a que mais surpreende e a que mais economiza reunião. Um KPI parado num valor saudável é uma boa notícia. Um resultado-chave parado é um problema. São instrumentos com expectativas opostas, e tratá-los igual faz o time comemorar estabilidade onde deveria haver mudança, ou entrar em pânico onde estabilidade é o objetivo.

O mesmo número pode ser os dois?

Pode, e é o caso mais comum. Churn mensal é um KPI da sua empresa desde sempre: está no painel, alguém olha todo mês, e nos trimestres em que ele anda bem ninguém faz nada especial a respeito.

Aí chega um trimestre em que o churn subiu de 2,1% para 3,4% e a empresa decide que isso é a prioridade. Nesse trimestre, e só nele, o churn também vira resultado-chave: "reduzir o churn mensal de 3,4% para 2,0% até 31 de março". Em abril ele volta a ser apenas um KPI, e o time ataca outra coisa.

Essa é a mecânica certa e ela tem um efeito colateral bom: o painel de indicadores fica estável ao longo dos anos, enquanto os OKRs giram. Você consegue comparar o churn de hoje com o de dois anos atrás, e ao mesmo tempo ver que ele foi prioridade explícita em dois trimestres específicos.

Por que transformar todo KPI em OKR quebra o trimestre?

É o erro mais comum de quem acabou de aprender o método, e a lógica dele parece impecável: se estes são os quinze números que importam, então estas são as nossas quinze metas. O resultado é um trimestre com quinze prioridades, que é o mesmo que nenhuma.

O que acontece na prática é previsível. Os três ou quatro números que já tinham dono natural continuam se movendo, porque alguém já cuidava deles. Os outros onze ficam parados, e alguém passa a segunda-feira atualizando célula de coisa que ninguém está trabalhando. Em março a empresa conclui que o método não funcionou, quando o que não funcionou foi a lista.

A pergunta que evita isso, feita indicador por indicador na hora de escrever o ciclo: este número vai mudar porque alguém vai trabalhar nele, ou só quero saber se ele piorar? A segunda resposta é honesta e é a maioria dos casos. Esses ficam no painel.

E onde entra a "meta"?

Meta é a palavra mais sobrecarregada das três, porque em português ela serve tanto para "o número que quero atingir" quanto para "a coisa que quero fazer". No vocabulário de OKR, meta é só o número de chegada: o 2,0% do exemplo do churn.

PeçaNo exemploPapel
Indicador (KPI)Churn mensalO que se mede
Valor de partida3,4%De onde saímos
Meta2,0%Aonde queremos chegar
Prazo31 de marçoAté quando
Resultado-chaveAs quatro linhas acima, juntasA aposta do ciclo
As três palavras, na mesma frase

Um resultado-chave sem valor de partida é a falha de escrita mais frequente que existe, e ela só machuca na semana 6. Com partida e meta, você sabe que andou 40% do caminho. Só com a meta, você sabe apenas que ainda não chegou, o que é exatamente a informação que não ajuda em nada.

Como decidir, na prática, o que vai para cada lugar?

  1. Liste todos os números que a empresa acompanha hoje. Todos, sem filtro.
  2. Marque quais estão dentro do aceitável. Esses são KPIs, e ficam no painel.
  3. Dos que sobraram, marque os que a empresa vai atacar de verdade neste trimestre, com gente e tempo alocados.
  4. Se sobrarem mais de cinco, você ainda não escolheu. Repita o passo 3 perguntando qual você levaria se pudesse levar um só.
  5. Os escolhidos viram resultados-chave, com valor de hoje, meta e data. Os outros continuam sendo KPI, e isso não é rebaixamento.

Perguntas frequentes

KPI e métrica são a mesma coisa?
Métrica é qualquer número que você consegue medir. KPI é a métrica que você elegeu como indicador-chave, ou seja, aquela cuja variação muda o que a empresa faz. Toda empresa tem centenas de métricas disponíveis e deveria ter poucos KPIs. Chamar tudo de KPI esvazia a palavra e o painel.
Um objetivo pode ter resultados-chave de indicadores diferentes?
Deve, quase sempre. É justamente o equilíbrio entre indicadores diferentes que impede o time de inflar um número machucando outro. Um objetivo de crescimento com três resultados-chave todos de receita é um convite a dar desconto; o mesmo objetivo com receita, margem e retenção fecha essa porta.
Preciso ter KPI antes de começar com OKR?
Ajuda muito, mas não é pré-requisito. Se você não mede nada hoje, o primeiro ciclo de OKR frequentemente descobre que o valor de partida de metade dos resultados-chave é desconhecido. Isso não é fracasso: descobrir os números é trabalho legítimo do primeiro trimestre, e vale escrever como a primeira tarefa de cada um.
OKR substitui o painel de KPIs?
Não, e as empresas que tentam isso perdem a capacidade de comparar o presente com o passado. O painel de indicadores é a memória longa da operação; o OKR é a atenção curta do trimestre. Os dois coexistem, e o painel é que sobrevive a mudanças de estratégia.
Qual a diferença entre resultado-chave e iniciativa?
Resultado-chave é a mudança que você quer ver no número. Iniciativa é o que você vai fazer para tentar causar essa mudança. "Elevar a conversão de 22% para 31%" é resultado; "refazer a página de preços" é iniciativa. O teste: se você entregar a iniciativa e o número não mudar, você não bateu o resultado-chave, e é assim que tem de ser.

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