Planilha de OKR e KPI: como organizar os dois sem misturar as coisas

Por Érico Rodrigues5 min de leitura

OKR e KPI vão em abas separadas da mesma planilha, nunca na mesma tabela. A aba de KPI lista os números que você acompanha o ano inteiro, com frequência e direção. A aba de OKR lista o que você decidiu mudar neste trimestre, com valor de partida e meta. A ligação entre elas é uma coluna de nome do indicador, não uma fórmula.

Por que não pode ser uma tabela só?

Porque as duas coisas têm ciclos de vida opostos. O KPI churn mensal existe desde que a empresa começou a medir e vai existir enquanto ela existir. O resultado-chave "reduzir o churn de 3,4% para 2,0% até 31/03" nasce em janeiro e morre em março.

Se você juntar os dois numa tabela, uma de duas coisas acontece. Ou você apaga o KPI quando o trimestre acaba, e perde o histórico do indicador. Ou você mantém tudo, e no segundo ano a tabela tem quarenta linhas em que ninguém distingue o que é meta viva do que é termômetro antigo.

Aba IndicadoresAba OKRs
O que a linha éChurn mensalReduzir o churn mensal de 3,4% para 2,0%
Quando someNuncaNo fim do trimestre
Tem valor de partida?Não, tem históricoSim, é obrigatório
Tem meta?Às vezes, uma faixa de normalidadeSempre
Quem olhaQuem cuida da operaçãoO time inteiro, no check-in
A mesma métrica, nas duas abas, com papéis diferentes

O que a aba de indicadores precisa ter?

ColunaExemploObservação
IndicadorCusto de aquisição (CAC)O nome exato, que a aba de OKR vai citar
TimeMarketingQuem responde pelo número
UnidadeR$Evita comparar reais com porcentagem
FrequênciaMensalCom que ritmo o número é atualizado
DireçãoMenor é melhorA coluna que quase toda planilha esquece
Faixa saudávelaté R$ 1.800Diferente de meta: é o limite de normalidade
AtualR$ 2.240O último valor medido
Fonte do númeroFinanceiroDe onde ele sai, para não virar arqueologia

A coluna DIREÇÃO não é burocracia. Sem ela, qualquer fórmula de situação que você escrever vai tratar todo indicador como "maior é melhor", e o painel vai pintar de verde o CAC subindo, o churn crescendo e o tempo de resposta piorando. É o pior erro possível num quadro de indicadores, porque ele mente com confiança.

Com a coluna de direção preenchida, a situação vira uma fórmula só que serve os dois casos, supondo meta em F e atual em G:

=SE(OU(F2="";G2="");"";
  SE(E2="Menor é melhor";SE(G2<=F2;"Na meta";"Fora da meta");
  SE(G2>=F2;"Na meta";"Fora da meta")))
Uma fórmula, as duas direções. Em inglês: IF, OR, com vírgula no lugar do ponto e vírgula

Como ligar as duas abas sem criar duas verdades?

A tentação é usar PROCV para puxar o valor atual do indicador para dentro da linha do resultado-chave. Funciona, e cria um problema silencioso: quando alguém insere uma linha no meio da aba de indicadores, ou renomeia um indicador, a referência quebra ou, pior, passa a apontar para o indicador errado sem erro nenhum.

O que funciona melhor numa planilha mantida por pessoas: uma coluna de texto na aba de OKR com o nome exato do indicador, e a regra combinada de que o valor atual é digitado num lugar só. Escolha qual. Se a fonte é a aba de indicadores, a de OKR puxa. Se é a de OKR, a de indicadores puxa. O que não pode é as duas serem digitadas à mão, porque em três semanas elas divergem e ninguém sabe qual está certa.

Quando encontro uma planilha de gestão com problema, na maioria das vezes é isto: o mesmo número existe em dois lugares e os dois são editáveis. Não é erro de fórmula, é erro de desenho, e ele não aparece até o dia em que duas pessoas apresentam números diferentes na mesma reunião.

Todo KPI precisa virar um resultado-chave?

Não, e essa é a economia mais útil que a separação em duas abas te dá. Um indicador estável, dentro da faixa saudável, não precisa de meta trimestral. Ele precisa de alguém olhando de vez em quando para garantir que continua estável.

A pergunta que decide: eu quero MUDAR este número neste trimestre, ou só quero saber se ele piorou? Se a resposta é a segunda, ele fica só na aba de indicadores, e o time ganha espaço mental para os três ou quatro números que realmente vão exigir trabalho.

Perguntas frequentes

Quantos indicadores uma empresa pequena deve acompanhar?
Entre oito e quinze costuma ser o suficiente para uma empresa de até cinquenta pessoas: dois ou três por área. O sinal de excesso é o mesmo do OKR: se ninguém consegue dizer de cabeça quais são os indicadores da área, a lista virou arquivo em vez de instrumento.
A faixa saudável é a mesma coisa que a meta?
Não. A meta é onde você quer chegar; a faixa saudável é o limite a partir do qual alguém precisa olhar. Um indicador pode estar longe da meta e dentro da faixa saudável, e isso é uma informação útil: significa que está ruim mas não está pegando fogo, e o time pode manter o foco no que está.
Posso ter um resultado-chave sem indicador correspondente?
Pode, e acontece toda vez que você decide medir algo que nunca mediu. Nesse caso o primeiro trabalho do trimestre é descobrir o valor de hoje, e vale escrever isso como a primeira tarefa. Um resultado-chave cujo valor de partida é "não sabemos" não tem como ser acompanhado.
Como faço quando o indicador muda de fórmula no meio do ano?
Trate como indicador novo, com nome novo, e mantenha o antigo congelado com a data da última medição. Reescrever o histórico com a fórmula nova parece mais limpo e destrói a única coisa que o histórico serve para responder, que é se as coisas estão melhorando.

Continue por aqui